segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo

“Viajo porque preciso, volto porque te amo” poderia ser o título de uma música, um poema ou simplesmente uma curta declaração de amor. Mas o pernambucano Marcelo Gomes e o cearense Karim Ainouz resolveram transformá-lo em um peculiar e inovador longa metragem.

Depois de dez anos de trabalho, os dois diretores resolveram mesclar imagens de um diferente sertão a uma boa narrativa atrelada a um universo real. São cenas duras que se transformam em poesia audiovisual de extrema simplicidade, como a despretensiosa filmagem de uma senhora fazendo rosas de espumas. Os cineastas poderiam utilizar as gravações para retratar qualquer enredo, ou história nenhuma, mas elas são unidas às confissões do personagem principal, o geólogo José Renato, e aparecem para despertar sensações e encantamento. Uma idéia original e simples.

José embarca em uma viagem a trabalho pelo sertão nordestino, esse é seu objetivo racional. Logo percebemos, intrínseco em sua história, a questão emocional: a saudade da sua ex-mulher, a dor do abandono. O desabrochar do filme é acompanhado de músicas ditas como bregas, próximas ao lugar-comum do amor sofrido. Essa proposta se encaixou bem ao contexto, criou realismo e possíveis identificações junto ao público.

Na obra, temos traços de documentário e ainda da ficção. Dentro desses formatos, encontramos um tom poético de uma historia de amor. As cenas, muitas vezes desfocadas e de tom caseiro, nos remetem a uma abstração. O que nos puxa para dentro do enredo é a narrativa de José, quebrando também alguns momentos de monotonia. Captamos suas dores, seu trabalho, sua paixão. O personagem permanece em uma intensa reflexão individual, traço caracterizador das obras de Marcelo e Karim.

A solidão constante do personagem aparece em forma de prosa e nos aproxima de sua história, nos emocionando. José cria diálogos unilaterais e ao mesmo tempo mostra seu desejo de esquecer a paixão sofrida. Temos, então, os traços antagônicos da obra: o amar e a vontade de “desamar”, o amor e o ódio, a viagem que o leva para trás e o esquecer que só o faz lembrar. As palavras saem verdadeiras, espontâneas e de sotaque tão original que o filme toma uma forma natural e forte. Por não vermos José, somos guiados por uma liberdade imaginativa, como na leitura de um livro. Fica ao nosso cargo desenhar e imaginar o homem que nos envolve em sua viagem de lembranças.

É um filme simples, de raízes, como um trabalho artesanal feito pelas mãos conjuntas de dois inovadores. A liberdade de criação é tão intensa que Marcelo define bem sua direção: “Uma viagem que se tornou uma história de amor ou uma história de amor que se tornou uma viagem”. No fim das contas, uma junção de imagens e sentimentos falados e sonhados em forma de prosa e saudade.



Classificação indictiva: 14 anos